Aproveitou a vista e a caminhada. Sentia-se bem, apesar de reconhecer a morte. Olhou para suas mãos e percebeu que ainda estava velho; o corpo não havia rejuvenescido, só não se cansava mais. Achou uma pequena colina e já em seu topo fechou seus olhos, respirando o ar gelado. Tentou fazer uma pequena retrospectiva de suas últimas horas no mundo dos vivos, mas não lhe veio nada. Pensou que aquela história de que a vida passa diante dos olhos antes da morte era uma balela. “Deve ser mentira, não vi nada” — não levou em consideração que sua vida foi incrivelmente intensa e complexa, e que mudou o mundo moderno.

Depois de algumas horas finalmente avistou algo de diferente. Os óculos que ele mantinha na cara por toda vida já não eram mais necessários, mas mesmo assim o limpou para confirmar que estava vendo realmente o que seria uma espécie de casa. Ao se aproximar confirmou ser uma choupana de madeira, com uma chaminé externa de pedra que começava do chão. A fumaça que saía no ar e uma luz terna vinda do interior do casebre denunciavam que havia alguém ali. À medida que ele se aproximava mais, aumentava o receio do que ou quem encontraria, mas não lhe restava muita escolha.
Sem muita demora chegou até a casa, e depois de três batidas na porta, olhou pelo vidro com as mãos em concha por cima das sobrancelhas. “Alguém aí?”, perguntou com a voz rouca. Sem qualquer resposta, decidiu entrar. Sem trancas, o rangido das dobradiças velhas deram um tom de suspense ainda maior do que a situação já trazia.
Enfim, o morador da choupana foi revelado sem dizer seu nome, mantendo-se de costas, sentado em uma mesa de madeira com bancos compridos. O velho ficou surpreso ao ver que era alguém vestido com uniforme militar francês do século 19, com um chapéu de feltro, com abas amplas e rígidas, e coroa alta. Era Napoleão. Ou alguém vestido como Napoleão.

— Já esperava por você, senhor secretário — respondeu ainda sentado à mesa, de costas.
— Secretário? Então me conhece! Diga, homem, onde estamos afinal? Estamos mortos?
— Morte…ah, velho Kissinger, conhecemos bem ela, não é mesmo? Carregamos tantas nas costas que a reconhecemos de cara.
— Quem é você? Exijo que se revele!
— Meu Deus…estamos no purgatório? — Kissinger resolveu sentar-se no banco de madeira ao lado do anfitrião.
— Espere aí, se você é mesmo Napoleão, está aqui há mais de dois séculos! Não pode ser, isso não pode ser verdade — pela primeira vez Kissinger demonstrava desespero.
— Você falando em purgatório…em verdade…achei que estaria mais consciente de si mesmo, meu nobre amigo. Eu e você não lidamos com verdades, e nenhum purgatório nos levaria para o céu.
— Olhe, eu não sei quem é você, não sei o que faço aqui. Isso tudo me parece um pesadelo, se que vou acordar na minha cama, logo. Aliás, se isso aqui não é um purgatório, também não pode ser o inferno.
— Diz isso por causa do gelo? Queria o que? Labaredas de fogo e cheiro de enxofre?
— Sim! — disse Kissinger em voz mais alta.
— Eu juro que achava você mais esperto.
— Olhe bem, eu vou embora! Isso tudo é uma loucura. Adeus.
Kissinger levantou-se abruptamente e caminhou à porta.
— Pode ir, não vai encontrar nada lá fora mesmo. Entenda, nós não cansamos, não temos fome, e sequer o vinho nos embriaga, mas por outro lado não temos nada além dessa casa e do gelo.
— Eu recebo um relatório.
— Ah, então vou poder ir embora em algum momento!
— Não disse isso.
— Eu não mereço esse exílio!
— Disso eu entendo.
— De culpa?
— De exílio.

— Eu mudei o século 20! Me respeite seu corso pedante! — disse Kissinger com dedo em riste.
— Eu fiz o 19, seu velho alemão egoísta! — retrucou Napoleão.
— Eu não matei gente como você matou, não fui um Ditador disfarçado de Imperador.
— Sério? Depois da Indonésia, do Chile...do Camboja? Está tudo no relatório, e não tem mentiras nele, diferente nos do seu país.
— Não ouse falar da minha nação. Somos o líder do mundo livre!
— Parece até aquele pessoal do Robespierre…me dá até sono.
— Você falando assim, e de acordo com a história que me contou agora há pouco, pensei aqui com meus botões — Napoleão estava sentado em uma cadeira que havia na casa, com um dos braços apoiados no topo do encosto, e o outro em sua perna. Vestia um uniforme branco, com botas pretas de cano alto. Havia colocado um casaco surrado enquanto Kissinger contava sobre o século que ele não havia vivido — Não seria a Rússia nosso principal ponto em comum? Veja, toda essa neve e essa terra arrasada.
— Sim! Só pode ser isso, Napoleão! A Rússia.
— A Rússia! Sempre os russos.
— Sua guerra foi fria, meu caro.
— Mas venci.
— Você realmente acredita nisso, não é?
— Claro. Isso definiu o mundo como o conhecemos, meu caro — disse em tom irônico
— Definiu o seu mundo, Kissinger. Não confunda as coisas.
— Tá bom. Disse o homem que se autoproclamou Imperador.
— O nome Vietnã te diz alguma coisa? Está no relatório também.
— Eu negociei a paz por lá, Napoleão. Não fale bobagem. Ganhei o Nobel da Paz por isso.
— Ganhou o que? — outra gargalhada do ex-Imperador da França — Deve algum tipo de brincadeira.
— O mundo depois do seu é complexo, muito complexo. Isso se chama realpolitik.
— Sei...nome moderno para imperialismo.
Mais um silêncio. Dessa vez, interrompido por Napoleão:
— Será que o mundo está melhor com a nossa partida, velho Kissinger?
— Acredito que não.
— O que falta, então?
— Falta combinar com os russos.
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Edmundo Siqueira
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