No hay plata y no hay racionalidad
Edmundo Siqueira 13/12/2023 20:21 - Atualizado em 14/12/2023 15:41
Foto: Juan Mabromata/AFP
A posse do novo presidente da Argentina — que aconteceu no último domingo (10) — foi mais um episódio tragicômico da chegada ao poder de um representante de grupos de direita radical e de extrema-direita no cenário político global. Javier Milei assume a Casa Rosada dizendo ser “o fim da noite populista”, se referindo ao kirchnerismo que derrotou nas urnas.

Milei diz encerrar um ciclo populista, mas inicia outro de sinal ideológico invertido. Abandonou a liturgia do cargo e o protocolo argentino e decidiu discursar do lado de fora do Congresso, onde criticou o antecessor e foi ovacionado por apoiadores. Nada mais populista.

A ideia que o agora empossado presidente da Argentina vendeu durante a campanha foi de alguém antissistema. Com frases de efeito, anarcocapitalismo, libertarismo, cachorros mortos e outras idiossincrasias, Milei trouxe a antipolítica como ideia central em seu discurso.

Porém, em suas primeiras ações como presidente, Milei derrubou uma lei que proibia o nepotismo e nomeou sua irmã em uma cargo importante de seu governo, e mandou incrustar no bastão presidencial argentino (um dos símbolos do poder daquele país) os seus amados cachorros. O libertário usando em benefício próprio o Estado.

Crises — Há uma profunda crise de representatividade, não apenas no Brasil e na Argentina, como em vários países. E essa crise arrasta, como uma das causas, um enfraquecimento brutal e crescente das democracias. A escolha por alguém antissistema reflete esse quadro, onde o eleitorado não vê nos políticos tradicionais uma possibilidade real de solução de seus problemas, ou pelo menos de garantia de seus direitos básicos.

O perigoso populismo autoritário que Milei representa tem pautas comuns, quase todas ligadas aos costumes. Elegem um comunismo inexistente como inimigo e mantém seus apoiadores com a sensação de que fazem parte de algo, e que precisam estar sempre alertas para a iminência da volta “deles”, dos “outros”, da “esquerda comunista”. Teorias conspiratórias não são incomuns.

Uma dessas pautas são as armas. Como parte desse ideário, o cidadão precisa ter acesso facilitado às armas para se proteger. O que é concernente com a lógica antipolítica e antissistema, onde o Estado não consegue promover a segurança pública, e portanto é preciso que individualmente se tenha a possibilidade de defesa. O problema é que essa é uma lógica inversa às democracias liberais.

Durante sua cerimônia de posse, Javier Milei decidiu escreveu no livro de presença do Congresso uma frase que resume esses movimentos populistas autoritários: “Viva la libertad, carajo!” (a tradução ao português é imediata, e sim, é um palavrão), que era também seu lema de campanha. A ideia de liberdade ilimitada, travestida assim para esconder desvios éticos e legais, conjuntamente com o palavreado antissistema, de fácil entendimento e identificação, violento e autoritário, compõe, em resumo, a dialética da nova onda de extrema-direita mundial.

A ideia de “salvador da pátria”, alguém ungido para estar onde está, também faz parte dessa dialética. Além da “libertad”, do “carajo”, Milei disse que em discurso de posse que “no hay plata” (não há dinheiro). Obviamente culpou seu antecessor, mas disse que tudo irá piorar na Argentina antes de melhorar, tendo ele todas as soluções.

Embora a Argentina seja de fato um caso suis generis, principalmente nas questões econômicas, apostar em alguém com as características de Milei parece ser um risco democrático e social.

Vai ser preciso entender qual Milei irá governar a Argentina, e se o poder irá moderar seu discurso e suas ações, mas a posse trouxe sinais de que os argentinos viverão tempos de pouca plata, e pouca racionalidad.

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