Crítica de cinema - Lion - Uma Jornada Para Casa
Edgar Vianna de Andrade 06/03/2017 18:21 - Atualizado em 08/03/2017 12:09
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“Toda criança pobre adotada por ricos num mesmo país ou em país diferente tem um drama de vida que daria um filme. Acontece que a maioria das pessoas que passou por essa experiência não escreveu sua história nem a narrou a alguém que a escrevesse. Saroo Brierley foi um dos poucos a registrar sua trajetória em livro. Ele nasceu na Índia, no seio de uma família pobre em que só aparecem a mãe, um irmão mais velho e uma irmã mais nova. A miséria na Índia é comum. O passado religioso convive com a modernidade sem manutenção. Assim, ao lado de homens e mulheres em seus trajes tradicionais e na prática de seus ritos, aparecem os trens, os famosos trens que transportam pessoas do lado de dentro e de fora, cortando todo o país.
A aldeia de Saroo está perdida dentro do subcontinente. Ele sai de casa para ajudar o irmão mais velho a ajudar na economia doméstica. Ele se perde do irmão e viaja muitos quilômetros de trem, escapando de situações perigosas. É muito comum vender-se crianças nos países pobres. É muito comum comprar-se crianças nos países ricos. Assim, Saroo (Sunny Pawar, quando criança, e Dev Patel, quando adulto) acaba parando na Austrália, adotado por um casal rico constituído por Sue (Nicole Kidman) e John (David Wenham). E lá cresce ao lado de um irmão também adotado e também indiano, mas “desajustado” no comportamento. Saroo também é um desajustado existencial.
Essa a história mostrada no filme dirigido por Gaeth Davis, roteirizado por Luke Davies a partir de relato do próprio Saroo, levado ao público pela luminosa fotografia de Greig Fraser e embebido na mágica música de Dustin O’Halloran. Fica difícil comentar apenas o filme sem descambar para observações sociológicas sobre a adoção. Normalmente, quem cede uma criança para ser adotada não tem condições de criá-la. Muitas famílias, porém, não querem se desfazer dos filhos, mantendo-os junto a si.
Por outro lado, o ocidente, que criou mais miséria que riqueza para pobres de outros continentes, é habitado por casais ricos que se consideram bem intencionados ao se oferecerem para adotar crianças pobres, negras, sujas, subnutridas das antigas colônias ocidentais. A trajetória de Saroo ilustra os dramas dessas crianças, que podem aceitar a adoção como forma de se livrar da vida de miseráveis, viver com serenidade após conhecerem seu destino ou se tornarem dividas como o caso de Saroo. Ele é uma criança nascida num meio de miséria, mas não preterido pela família. Sua sorte, porém, é parar nos braços de um casal australiano rico que lhe proporciona uma vida confortável e uma formação de nível superior.
Nada impedia o casal de ter seus próprios filhos. Mas, por opção política, ele quis ajudar os pobres. Renunciou aos próprios filhos para ajudar os carentes. O filme parece fazer a apologia da adoção, mas a mim me fez pensar sobre o drama deste instituto. O ocidente domina um país com cultura muito diferente da nossa, desmonta a estrutura social dele, aumenta as desigualdades, exacerba a miséria, produz crianças paupérrimas e oferece casais seus para adotá-las. Talvez fosse melhor nunca ter dominado esses países, sempre considerar que levava a desgraça para eles. A dúvida, no mundo ocidental, é uma atitude rara. Mesmo a dúvida sistemática, de Descartes, tem por fim acabar com as dúvidas.
E, no entanto, chama a atenção o contraste entre duas culturas. No ocidente, a vida é asséptica e privada. Na Índia, todas as dimensões da existência são socializadas. O grupo social participa da vida de um casal da fecundação à morte, passando pela criação dos filhos, iniciação religiosa, casamento e novamente o ciclo todo de vida. Talvez a passagem mais emocionante do filme seja a do reencontro da Saroo, com sua família verdadeira, na verdade com sua aldeia e com sua cultura. Alegria, barulho, festa é o que marcam esse encontro.
O filme quase consegue passar ao largo dos padrões hollywoodianos, mostrando uma forma de narrativa distinta da que conhecemos. O herói é um ser angustiado que nos incomoda.

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