
Há um conceito nas ciências sociais que procura explicar o que acontece quando um povo — que pode ser de uma mesma nação ou etnia, ou mesmo representado em configurações mais específicas — cria pontos de convergência de sentimentos reprimidos, e concentram o ódio e o preconceito nesses pontos focais. São as chamadas “sombras coletivas”.
O surgimento das sombras coletivas normalmente é precedido por momentos de fragilidade social extrema: uma grave crise financeira ou conflitos de massa. E essas sombras ganham contornos reais quando são direcionadas para os culpados dessa fragilidade. Ou, pelo menos, de quem se pretende culpar, uma vez que essas ondas de ódio coletivo não precisam de racionalidade ou mesmo do entendimento real das responsabilidades; basta que algo ou alguém consiga canalizar as energias negativas.

É difícil conceber, por exemplo, que a sociedade alemã apoiou o extermínio de judeus, muitos deles antes seus vizinhos e conhecidos, até serem desumanizados pelo movimento nazista. Hitler concentrava e personificava a sombra coletiva da Alemanha arruinada no pós primeira guerra, e estava legitimado para agir em nome do povo. Embora alguns negassem a existência dos campos de concentração, ou fechassem os olhos para outras atrocidades, parte significativa da sociedade alemã — há pouco mais de 80 anos, portando extremamente recente no tempo histórico — dava ao líder sombrio o poder necessário para cometer assassinato em massa de um grupo étnico transformado em alvo das projeções de ódio da sociedade, transmutados em bodes expiatórios.

Quanto mais primitivo o nível de consciência da sociedade, mais se acredita em salvadores da pátria, ou em líderes ungidos. Esse nível de consciência pode diminuir ou aumentar pelos níveis de educação e cultura de uma sociedade, mas também é afetado pelas crises, e os líderes carismáticos que conseguem perceber esses momentos e personificar as sombras coletivas, transformam-se, invariavelmente, em ditadores.
O primeiro era queimado em holocausto (oferta queimada, sacrifício pelo fogo) em um altar, junto de um touro. O segundo bode era deixado ao relento no deserto, depois do sacerdote colocar a mão sobre sua cabeça, como forma de transmitir todos os pecados de seu povo para o animal; abandonado, e lavando todos os pecados consigo, o bode era ofertado no deserto ao anjo caído Azazel.

As redes sociais criam bodes expiatórios todos os dias, e não é incomum ver comentários repletos de ódio e preconceito em publicações dos mais variados assuntos. Linchamentos virtuais são cometidos sem que se tenha conhecimento significativo da situação apresentada, em um claro movimento de manada.
Em outras palavras: um carro de luxo só se torna devidamente cobiçado coletivamente quando se transforma em um objeto de desejo coletivo, e passa a ser utilizado por figuras proeminentes da sociedade. Esses desejos miméticos, ou de imitação, são potencializados pela propaganda, pelo cinema, pela televisão e, mais recentemente, pelas redes sociais.

Os indivíduos, ao controlarem suas vontades, produzem internamente violência, e esse estado violento pode resultar em conflitos constantes e com potencial para fugir do controle. Então, para que essa violência canalizada e estimulada não produza confrontos entre os próprios sujeitos, entre determinados grupos, surge o mecanismo do bode expiatório.
Os telespectadores, muitos submetidos a um estado de violência constante nas cidades e abandonados pelo sistema de proteção estatal, conseguiam ter aliviados seus sentimentos reprimidos pela violência presenciada na TV. Sentiam-se vingados, e com a sensação que “alguém está fazendo alguma coisa” ou mostrando para eles algo que eles queriam fazer e não podiam.
Sem se preocupar com preceitos constitucionais estabelecidos no Brasil desde 1988, como a presunção de inocência, o direito de imagem, a ampla defesa e o contraditório, esses programas promoviam o julgamento público de indivíduos que apresentavam, sistematicamente, as mesmas características físicas e sociais.

Sikêra e Montes usavam o culto à morte, um tipo peculiar de humor macabro e principalmente, traziam à exibição pública de massa um leque de bodes expiatórios, que regularmente pertenciam ao mesmo grupo social e racial, e invariavelmente vindos de um mesmo local periférico.

Joaquim Palhares com a João Paulo I, no bairro Estácio, no Rio de Janeiro, o ex-policial militar Ronnie Lessa, acompanhado do também ex-policial Élcio Queiroz e mais dois comparsas, dispararam tiros contra o carro onde estavam a ex-vereadora Marielle Franco e seu motorista, Anderson Gomes. Ambos morreram no local.
A morte de Marielle, pelas circunstâncias e perfil da vítima — que além de preta e periférica, tinha uma atuação contra as milícias do Rio de Janeiro —, ganhou destaque nacional e se transformou em uma das apurações policiais mais acompanhadas do país.
Em um extenso relatório de 479 páginas, finalizado no último 24 de março, a Polícia Federal deu como concluída a apuração do crime, e apontou os executores e os mandantes. Como uma das principais motivações, o relatório apontou uma disputa de terras, onde um grupo da Câmara Municipal do Rio, liderado por Chiquinho e Domingos Brazão, buscava uma área para fins comerciais, enquanto Marielle tentava a utilização das mesmas terras para fins sociais, de moradia popular.
Embora vítima e atuante contra um grupo criminoso, Marielle foi considerada culpada. De perfil social, racial e de gênero prontos para serem odiados por integrantes de grupos de extrema-direita, a morte da vereadora canalizou ódios coletivos e foi constantemente alvo de ridicularização e de movimentos que buscavam culpar a vítima pelo crime, onde, na posição de bode expiatório, mereceu ser sacrificada por ser detentora de “pecados” não aceitos por determinado grupo.

Em 2022, em 8 de março, em que se comemora o Dia Internacional da Mulher, a mesma dupla reeditou a foto, dessa vez no gabinete de Amorim, onde exibiram com orgulho a placa destruída, com uma das metades emoldurada. Na imagem era possível ver, ao fundo, um fuzil e um quadro com o senador Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente Bolsonaro, acusado de envolvimento com as milícias.
Ao ser assassinada de forma brutal, Marielle se tornou um bode expiatório para aqueles que preferem desviar o olhar de suas próprias sombras e responsabilidades. Sua morte não apenas evidenciou a face sombria de nossa sociedade, mas também revelou a necessidade urgente de confrontarmos essas realidades obscuras que permitem a perpetuação do ódio e da injustiça.
É fundamental reconhecer que todos nós carregamos em nós a capacidade para o mal e que, ao invés de procurarmos bodes expiatórios para nossas frustrações e sombras coletivas, devemos nos enxergar como iguais, buscando compreender e confrontar nossas próprias imperfeições.
Do contrário, nunca conseguiremos tirar os bodes da sala.
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Edmundo Siqueira
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