Novatas e novatos
*Adélia Noronha - Atualizado em 11/10/2018 18:39
Por mais de uma vez, o crítico literário brasileiro Alcir Pécora declarou que estava cansado da literatura brasileira atual por não encontrar nela nenhum traço de inovação. Inclusive, disse que se dedicaria ao estudo de autores brasileiros de outros tempos. Não tenho o conhecimento dele, mas reconheço talentos na poesia e na ficção da atualidade. Acontece que estão aparecendo muitos autores e que ainda não houve uma avaliação adequada da nova literatura brasileira. Da minha parte, estou atenta às novas e novos, sempre na expectativa de que apareçam talentos. Nesse sentido, registro hoje alguns nomes de estreantes femininos e masculinos.
Nathalie Lourenço publicou seu primeiro livro pela editora Oito e Meio (Rio de Janeiro), em 2017. Trata-se da reunião de contos “Morri por educação – dezessete contos desgraçados”. Ela circula por uma atmosfera fantástica e imponderável. No conto “Dente”, uma mulher presa na neve por 48 horas perde dois dedos da mão, seis dos pés e a ponta do nariz. Em “Trilhos”,sua escrita parece seguir a linha de Murilo Rubião. Um macaco de nome Ernesto defecava sobre qualquer orifício que encontrasse. “Cagava em qualquer concavidade desprotegida, de forma que era preciso avisar às visitas que não deixassem seus bonés virados para cima”. Além do mais, ele trabalhava melhor que uma pessoa como guarda-chaves de uma estação ferroviária.
“Inventário de dores” é um conto interessante passado num asilo. Lá, uma senhora interna recebe a visita de uma neta que gosta mais do asilo que da escola. Em “Sede”, a autora esboça uma distopia transcorrida em 2020. Nela, a água se tornou escassa e passou a ser artigo controlado por facções criminosas. O ambiente num futuro próximo é marcado por pobreza e violência. Não precisamos imaginar distopias. O mundo já é distópico. No meu entendimento, o conto poderia ser melhor trabalhado. Toda utopia ou distopia requer pesquisa.
“O lobo” narra o drama de uma moradora idosa cuja casa numa encosta desliza com a chuva. A pobreza e as lembranças a acompanham. Recordei de um conto de Bernardo Élis em “Ermos e gerais”. Em “A arte de correr pegando fogo”, a autora investe contra o cigarro. “Concha” trata de um afogamento. “Desesperanto” é um achado em termos de palavra para mostrar o que acontece nos nossos dias. O mundo está mais para torre de Babel do que para esperanto. Em “O Nono” um casal tem nove filhos masculinos. O nono é filho do diabo, com mãos e pés peludos. Por fim, “Sudário” tem como centro uma lua-de-mel antecipada na festa de casamento.
Não é possível assegurar que Nathalie Lourenço será uma grande literata apenas com base em seu livro de estreia. Aguardemos seu futuro.
“Peixe cego”, de Priscila Gontijo (Rio de Janeiro: 7 Letras, 2016), foi bastante elogiado. A trama consiste num triângulo insólito: Irina, o gato Vodka e o peixe Mishkin. Ela lê para cegos ensaia teatro num manicômio e também trabalha numa editora de guias turísticos. Sua vida é marcada por autores russos. Ela deseja conhecer Moscou, pois seu pai, de passado comunista, gostava da URSS. O romance se passa numa São Paulo degradada, com personagens típicos da atualidade da cidade. O livro é um pastiche proposital recheado de humor e ironia. Há capítulos que apenas enchem linguiça. Outros são frouxos e nada convincentes
Priscila Gontijo pertence à geração que teve pais com posições políticas fortes. Com passado de lutas, militância e prisão. Os filhos deambulam no cotidiano com desejos e ideais tíbios. O resultado é ainda um livro frouxo, mas não se sabe o que pode acontecer futuramente.
“Granulações”, de Anna Monteiro (São Paulo: Reformatório, 2018), é um romance formal que tem por enredo a vida de um casal com diferenças acentuadas. Ela é uma jornalista pragmática, especializada em economia, gosta de vida organizada e saudável. Tem família consolidada e gosta dela. Ele é fotógrafo, artista e boêmio com posições superficiais de esquerda. Desorganizado, não liga para convenções sociais. Gosta de beber e de jogar. Não se importa com roupas. Parece viver no passado. Os dois se amam, mas passam o tempo discutindo a relação.
No final, anunciado logo nas primeiras páginas, ela o abandona. Não estou adiantando o desfecho para o leitor. O primeiro e o último capítulo tratam de ambos. No meio do livro, um capítulo é dela e outro é dele, em alternância. Cada um vê a mesma questão de forma distinta. Na narrativa, entram as questões da atualidade: a situação do Rio de Janeiro, problemas ambientais, relações amorosas, mudanças de comportamento. Antigo, o personagem ainda é machista.
Do andar de baixo da sociedade, vem Geovani Martins, que nasceu em Bangu, subúrbio da Central. “O sol na cabeça” (São Paulo: Companhia das Letras, 2018)é um livro de contos de um autor sem formação literária convencional, como foi o célebre caso de Carolina Maria de Jesus, com o celebrado “Quarto de despejo”. Porém, o marginalizado de hoje tem acesso às redes sociais. Carolina mal sabia escrever. No conto “Espiral”, Martins mostra como o favelado e o urbanoide revelam estranhamento um em relação ao outro: “É foda sair do beco, dividindo com canos e mais canos o espaço da escada, atravessar valas abertas, encarar os olhares dos ratos, desviar a cabeça dos fios de energia elétrica, ver seus amigos de infância portando armas de guerra, pra depois de quinze minutos estar de frente pra um condomínio, com plantas ornamentais enfeitando o caminho das grades, e então assistir adolescentes fazendo aulas particulares de tênis. É tudo muito próximo e muito distante”. Eis o contraste bem definido.
Em alguns contos, Geovani Martins escreve como se fala em linguagem de periferia, como no conto “A história do Periquito e do Macaco: “os cara quente no morro meteram tudo o pé pra outras favela que tava mais tranquila. Quem se [email protected]#$% mermo era morador, como sempre.” Em outros, ele procura elaborar uma escrita culta. Morei em Padre Miguel no fim da década de 1950 e quase toda a década de 1960. Lembro bem da vida de subúrbio. Era calma. Havia violência, mas contida e restrita. Lá, aprendi muitos jogos infanto-juvenis. Martins menciona vários deles, mas de mistura com o tráfico de drogas e a violência. Também com videogames e celulares. Refere-se até a Ubaldo de Oliveira, político muito popular por aquelas bandas e que hoje é nome de rua e de escola.
Um conto, aliás, tem como título “Estação de Padre Miguel”. O autor vai mais longe. No conto “O mistério da vila”, ele fala de um tempo em que os subúrbios ainda tinham rios limpos e árvores. “como eram todas aquelas árvores, o rio antes de virar valão, correndo com água limpa e própria para o banho e para a pesca.” Eu já conheci os rios poluídos e os terrenos sem árvores. Nos subúrbios de hoje, ao lado da violência, proliferam as igrejas evangélicas.
Diplomata e antropólogo, Gustavo Pacheco estreia na literatura com o livro de contos “Alguns humanos” (Rio de Janeiro: Tinta da China, 2018). O novato impressiona. Ele viaja no tempo e no espaço com seus contos. Em “Dohong”, aproxima oshumanos dos macacos, colocando um pigmeu entre ambos. O pigmeu passa a ser a grande atração do zoológico até começarem os protestos. A natureza humana é colocada em causa. Em “Alguns primatas”, percebe-se a influência de Sérgio Sant’Anna, que escreveu um conto sobre um diálogo e construído no diálogo. Não se sabe se é um conto pronto ou em construção.
Em “Zakali”, brancos devoram negros, questionando a ideia presente até nos quadrinhos que antropófagos são negros e índios, nunca brancos. Já em “Kuek”, o autor narra a triste história real do nativo Kuek, comprado e levado a morar na Alemanha pelo príncipe naturalista Maximiliano de Wied-Neuwied, na sua famosa viagem científica do Rio de Janeiro a Salvador entre 1815 e 1817. Como essa expedição me é cara, esperei mais criatividade do autor.
“O amante da mulher mais feia do mundo” tem como personagem central uma mulher com deformações congênitas. Pacheco admira o estranho, o teratológico, tal qual o cineasta norte-americano Tod Browning. Além do exótico, Pacheco viaja pelo sem sentido. Bastante curioso é seu conto sobre o bizarro anfíbio axolotl. Quem não o conhece, pensa que se trata de uma invenção. Aconteceu o mesmo com o ornitorrinco, visto como uma fraude pelos naturalistas europeus. A influência de Sérgio Sant’Anna de Joca Reiners Terron é clara. Tanto que o autor faz agradecimentos a ambos no final.
Gustavo Pacheco parece ser uma promessa na literatura brasileira.

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